domingo, 7 de fevereiro de 2016

Amputações, crucificações públicas e degolamentos: líbios comentam vida sob Estado Islâmico

Estado islâmico em Sirte, na Líbia
Estado islâmico em Sirte, na Líbia


Uol Notícias(com edição)

Cinco anos depois da violenta revolta que tirou do poder o ex-líder líbio Muammar Gaddafi, combatentes do grupo extremista autointitulado Estado Islâmico (EI) estabeleceram uma base na cidade de Sirte, na costa do país.

Com cerca de 1,5 mil soldados no local, segundo estimativas, a milícia começou a impor suas leis por ali, incluindo regras de vestuário para homens e mulheres, segregação nas escolas e o estabelecimento de uma polícia religiosa.

As punições para crimes que vão de roubo e produção de bebidas alcoólicas até "espionagem" incluem prisão, amputações, crucificações públicas e decapitações. O grupo ainda criou sua própria "força policial", que faz buscas nas casas e força as pessoas a frequentarem aulas de reeducação islâmica.

O chefe da inteligência do governo líbio na vizinha Misrata, Ismail Shukri, afirma que a maioria dos combatentes do EI em Sirte é de estrangeiros - vindos principalmente da Tunísia, do Iraque e da Síria.

O acesso à cidade é perigoso para jornalistas, e o contato com as pessoas que moram lá é limitado - geralmente por medo de retaliações.

A BBC conversou com ex-moradores que foram forçados a deixar a cidade para escapar do Estado Islâmico. Confira os relatos:

Depoimento 1: Bint Elferagani, médico

Eu trabalhava como pediatra no Hospital Ibn Sina. Agora, estou em Trípoli (capital da Líbia), para onde escapei com minha família em agosto de 2015, quando os conflitos estavam começando.

Mas, como todos os outros, ainda tenho parentes morando em Sirte. Nós às vezes entramos em contato com eles pela internet, por meio de uma conexão via satélite. Em geral, lá não há mais acesso à rede ou a linhas telefônicas.

Aqueles que continuam na cidade tendem a ser aqueles com menos condições financeiras, que não podem pagar aluguel em outros lugares. Têm chegado até nós notícias de que estão faltando remédios nos hospitais. Quem corre risco de morte, e tem como sair de lá, está fazendo isso.

A matança é inacreditável. Eu perdi quatro primos do lado paterno da família, cinco do lado materno, outros três parentes e dois vizinhos.

Um primo foi crucificado na rotatória Zaafran, outro na rotatória Gharbiyat e um terceiro foi decapitado. O quarto foi morto por um tanque de mísseis.

Uma amiga perdeu três de seus irmãos mais novos. Ela se instalou em Zliten (outra cidade da costa da Líbia) recentemente. A situação é trágica: seu irmão foi morto em um ataque suicida em 7 de janeiro. Ele estava prestes a se formar na escola militar. Um momento de felicidade que se transformou em luto.

Eu culpo os países da região pelo Estado Islâmico. Odeio ouvir o nome de alguns deles agora: Egito, Tunísia, Catar, Argélia, Sudão, Afeganistão, Síria. Nós, líbios, teríamos resolvido os nossos problemas nós mesmos se eles tivessem nos deixado sozinhos.

Há líbios entre eles (EI), como os jihadistas das cidades de Benghazi e Derna. A Líbia é um lugar pequeno, todos conhecemos uns aos outros.

Meu pai é um policial veterano e estava sendo ameaçado em Sirte. Todos que trabalham na polícia podem ser sequestrados ou mortos se não se juntarem a eles.

As forças do Estado Islâmico se concentram no meio da cidade. Um amigo me disse que eles tomaram nossa casa vazia, assim como fizeram com os principais prédios do governo, o hospital onde eu trabalhava, a mesquita local e a universidade.

Depoimento 2: Al-Warfali, ex-morador de Sirte

Os soldados do Estado Islâmico tomaram a cidade em fevereiro de 2015. Mas não se tratou de uma invasão em si, e sim de uma combinação de acontecimentos: combatentes jihadistas locais (da milícia Ansar Al-Sharia) declararam aliança ao EI e depois receberam os reforço de homens que fugiram das forças do general Khalifa Haftar em Benghazi.

Há pessoas de outras nacionalidades nas fileiras do Estado Islâmico. Notamos isso pelo sotaque e pela aparência deles. Há tunisianos e egípcios. Não são apenas árabes. Em abril de 2015 houve um desfile especial de boas-vindas para pessoas que eles disseram ser combatentes do Boko Haram, vindos da Nigéria.

No início, o EI não estava muito focado em implementar sua severa interpretação da Sharia, a lei islâmica. A sensação era a de que eles estavam mais preocupados em conquistar a fidelidade e a obediência da sociedade tribal de Sirte.

Apenas em agosto as regras de vestuário e comportamento começaram a ser implementadas de forma mais perceptível. Foi quando também tiveram início as crucificações e os chicoteamentos de pessoas condenadas, que ocorrem geralmente após as orações de sexta-feira.

Até dezembro, quando saí de lá com minha família, entrar e sair da cidade era algo rotineiro. As únicas pessoas que tinham problemas para ir e vir eram aquelas associadas a outros grupos de combatentes ou suspeitas de serem "espiãs".

A maioria dos alimentos e produtos vendidos nas lojas estão levemente mais caros. Gasolina, não há um ano e meio. As pessoas que ainda recebem de Trípoli seus salários do serviço público escolhem ficar. Sair de lá simplesmente não faz sentido economicamente para a maioria da população.

Cursos de 'reeducação'

Folhetos e cartas têm sido distribuídos para lojistas e servidores públicos, convidando-os para cursos de "reeducação" ministrados pelo Estado Islâmico.

Eles são realizados no Ougadougou Conference Centre, suntuoso prédio com paredes de mármore construido por Khadafi para sediar cúpulas pan-africanas.

Nos cursos ali ministrados, os integrantes do EI instruem empregados sobre a importância de aderir à sua versão da lei islâmica.

As cartas alertam: "Quem não comparecer estará passível de questionamento."


Depoimento 3: Ibrahim, autônomo

Eu sou de Sirte, onde trabalhava como autônomo. Deixei a cidade com minha família em 17 de julho do ano passado, algum tempo após a chegada do Estado Islâmico. Agora, vivemos em Misrata.

Estou, é claro, preocupado com minha família. Nós ainda temos parentes e amigos na cidade.

Quando escapamos, eles deixavam as pessoas irem e virem conforme queriam. Ouço de amigos que elas ainda podem sair caso queiram.

Também temos escutado que praticamente não existem remédios nos hospitais. Há comida disponível, mas por meio de "aproveitadores da guerra". Pelo que sabemos, não há gasolina.

O EI deve ter tomado Sirte com a ajuda dos militantes pró-Khadafi, que inicialmente chegaram lá com o pretexto de expulsar soldados de Misrata. Não há como esses combatentes estrangeiros conhecerem as entranhas da cidade sem a ajuda de locais.

Eles começaram a crucificar pessoas na entrada da cidade dois meses após tomá-la. Seu "crime" era serem espiões do Líbia Dawn (grupo islâmico rival).

Eu, pessoalmente, vi ao menos uma pessoa sendo crucificada. Depois, ouvi e li sobre outras 17, entre elas meu amigo Sharaf Aldeen e seu irmão sheik Meftah Abu Sittah (clérigo salafista). Ambos estavam mortos quando foram crucificados.