sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Crônica: Tuntum gostoso da minha infância



Por Emerson Araújo

Apesar de ter nascido em Tuntum, de fato em Santa Filomena, antigo distrito da princesinha do sertão no final da década de cinqüenta, a minha relação mais próxima com a cidade só veio a acontecer há sete anos quando passei a residir por aqui. Antes, Tuntum fez parte da minha infância no tempo das férias escolares do meio e fim de anos quando aportava aqui vindo de Floriano, Oeiras, Picos e depois de Teresina para visitar a minha tia/mãe/madrinha Maria Secretária (A Dindinha), Padrinho Félix Ventura Torres, as primas  Margareth, Inês, Aleluia e os Tios João Afonso e  Zé Nilton na sublime Rua São Raimundo do Tuntum do Meio.

Chegar a Tuntum, nas décadas de sessenta, setenta, oitenta, era uma aventura que mexia com as batidas do coração do menino magricela que amava estar entre os padrinhos, nas principais ruas sem calçamento, metido no mato do Machado, da Vila Cearense, do Tuntum de Cima, Brejo do Caboclo  a passarinhar com os amigos de travessura Ronald Torres, Denda, Vicentinho, Manoel da Farmácia, Rogério do Manoel Faustino, Manoel e Gil Léda, Antonio Reinaldo Pessoa, Ronaldo Lopes, Neto Léda, Pires Léda, João Moura, Luís da Zeza, Luís da Peda, Acácio, Severino, Edvagno e dos filhos mais velhos do protético Joninha. Tempo da velha usina elétrica movida a óleo diesel que colocava as mocinhas de volta para casa sempre as 22 horas, dos Cines Canecão e Canequinho, da Laguna, do Mangueirão, do Planeta e sua festas sob o som dos Bem Bens da Paraíba ou nas antigas radiolas na voz dançante de Tina Charles, das usinas de beneficiamento de arroz, do Brejo do Caboclo, dos armazéns abarrotados de arroz, milho e algodão adquiridos na folha e Frei Dionísio Guerra, administrando a catedral com promoção social e reclamações a favor da reverência ao culto católico. 

A minha infância testemunhou o Tuntum de glórias, de efervescência econômica e fartura nas portas das casas simples, de gente humilde. Tempo de meninice e travessuras, descobertas que os anos não trazem mais, como no poema piegas, nos quintais fartos, no canto dos corrupiões ensinados e no sabiá verdadeiro voando limitadamente pelas gaiolas de talo de babaçu nos umbrais das residências mais abastadas.

Mas Tuntum, também, tem sido durante estes sessenta e um anos que ainda vai comemorar em 2016 um intervalo emblemático na maioria dos períodos anuais e nos anos sucessivos da minha memória. Sem contatos, na maioria das vezes, imaginei meu rincão como um labirinto sem horizontes, um dédalo de dores e perdas inumeráveis, mas, ainda, saudade como asa de borboleta, voo do meu colibri azul.