domingo, 14 de fevereiro de 2016

Lula em estado de sítio



Por  ALEX SOLNIK


Quando, na madrugada de 5 de setembro de 1973 aquele que me pareceu ser o chefe do DOI-Codi me escoltava até a carceragem, depois de eu ter passado mais de 20 horas sentado num banco e numa cadeira, metido dentro de um capuz preto eu tomei coragem e lhe disse: “Vocês estão perdendo tempo comigo, eu não tenho nada a ver com isso, vocês pegaram a pessoa errada”. Sem se alterar e sem parar de caminhar ele virou-se para mim: “Você é o Hippie da AP. E nós vamos provar”. Eu não era o Hippie da AP, eles não provaram nada, mas me mantiveram preso por 45 dias ao fim dos quais a menor perda foi um ano de faculdade.

Me lembrei disso ao ler o noticiário sobre Lula esta manhã, que é igual ao de ontem e ao de anteontem, sempre martelando o caso do sítio de Atibaia. A palavra “sítio” logo se transformou em “estado de sítio” e em “sitiado”. Lula está num estado de sítio, pensei; estão sitiando Lula.

E logo a seguir eu me lembrei de um livro de Kafka chamado “O Processo” em que o personagem K está sendo acusado sem saber do que, num processo que não tem fim. Um processo kafkiano. O objetivo dos acusadores de K é investigá-lo mais e mais, investigar e investigar – sem nunca chegar à conclusão do processo. Porque há risco de que, chegando ao fim, ele poderá ser absolvido.

Enquanto investigarem Lula ele estará “sitiado”, acuado, pendurado vivo num poste. exposto à execração pública. Desconfio que o processo tende a se arrastar, enquanto ele estiver se arrastando Lula estará sob suspeita. Não há intenção de chegar ao fim. Porque o mais provável é que, assim como o chefão do DOI-Codi não conseguiu provar que eu era o Hippie da AP, porque nunca fui, o processo ao final não terá provado nada. 

Cá entre nós, a investigação, se fosse para valer, não demandaria muito tempo, pois há somente duas perguntas a responder: 1) o sítio é de Lula? e 2) as reformas foram feitas a seu pedido?

Não haveria muita dificuldade em localizar a escritura da propriedade e averiguar a sua legalidade. Se a escritura é legal e não tem nome de Lula o sítio não é dele. Dá-se o mesmo em relação às reformas. Ou existe algum documento com a assinatura de Lula autorizando obras no sítio ou não existe. E se não existe não há prova de sua relação com as reformas.

Eis o perigo de se chegar ao final da investigação: arquivar o caso por falta de provas. E o problema é o seguinte: se depois desse carnaval todo a Polícia Federal der uma certidão de honestidade a Lula vai ser um pandemônio.

Como tudo indica que provas de delinquência não há, apenas ilações tais como "o barco da Marisa" e "ele levou para lá 30 caixas com bebidas" é preferível rolar com a barriga.

E manter o ex-presidente sob eterna suspeita, como o Zezé da marchinha de João Roberto Kelly: “Olha a cabeleira do Zezé/ será que ele é?/ será que ele é?”

Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão", "O domador de sonhos" e "Dragonfly" (lançamento setembro 2016).