sábado, 19 de março de 2016

A direita não pode conviver com o Lula



Por  EMIR SADER

Lula começou a desenvolver na Avenida Paulista, seu novo discurso, de quem assume um cargo no governo Dilma. Depois do discurso para congregar a militância de esquerda, os movimentos sociais, os eleitores da Dilma, que o levou a dizer, no auge desse movimento, no aniversario do PT, em 27 de fevereiro, no Rio, de que acabava o “Lula, paz e amor”, na Avenida Paulista esboçou o que vai ser seu discurso desde o governo: um discurso nacional.

Toda a ação da direita tem sido não apenas para criminaliza-lo, mas também para tentar destitui-lo da condição de único dirigente politico com credibilidade para poder restabelecer a unidade nacional, por ter dialogo com o PMDB, com grandes setores do empresariado, com os movimentos sociais, com a grande massa da população que antes do seu governo estava excluída dos direitos fundamentais. Para isso ele voltou ao Lula, paz e amor”, falando para o povo como todos os direitos conquistados por ele foram graças à democracia e que, sem ela, serão portanto as principais vitimas da sanha golpista.

Por isso Lula pregou a paz, o entendimento, o convívio na diferença, o debate de alternativas para o pais. Pregou contra o ódio, a intolerância, falou de como a democracia é o único marco em que as diferenças podem caber. Chamou aos empresários à retomada do crescimento economico, marco em que eles mais prosperaram, no seu governo.

Lula retomou a necessidade de que os brasileiros voltem a gostar e a confiar no pais, condição de que todos participemos de soluções à superação da crise. Lula sabe que a direita so poderia triunfar diante de um povo desmoralizado e desesperado, cansado de tanta crise e denuncia, desesperançado no Brasil.

É o discurso nacional com que ele pretende colaborar para o resgate do governo da Dilma e sua recuperação, da animação economica, do crescimento e da distribuição de renda. Lula se ocupara’, entre outras funções, do PAC, a que ele imprimira o dinamismo que teve no seu governo, incluindo um novo impulso no Minha casa, minha vida.

Por isso Lula é inaceitável para a direita brasileira. Porque ele tem plenas condições de desmontar o discurso que subjaz a todo o plano golpista: o de que o Brasil não dá certo e de que o principal problema do pais é a corrupção e não a recuperação do desenvolvimento com distribuição de renda.

Lula conviveu perfeitamente com a direita durante seu governo, mas a direita não suporta a convivência com ele e por isso joga todas suas cartas, as mais abjetas, para tentar tirá-lo da vida política e tentar fazer do Brasil o que eles bem entendem, o que o Macri esta fazendo na Argentina (onde, em abril, volta uma missão do FMI para controlar a aplicação dos ajustes impostos pela carta de intenções vinculadas aos novos empréstimos).

Quem incomoda a direita é o “Lula, paz e amor”, o que montou uma arquitetura politica que permitiu o Brasil viver o momento mais virtuoso da sua historia. E’ quem pode desmontar o clima de ódio e intolerância de que se alimenta a direita. E’ quem pode permitir o resgate do Brasil que dá certo, com prestigio com seu povo e com prestigio no mundo. O pais que notabilizou o Lula como o campeão mundial da luta contra a fome, que o projetou como o grande líder politico na luta democrática contra a desigualdade no mundo.

Isso é insuportável para a mídia, que tenta projetar uma imagem de um Lula “perigoso” para as instituições democráticas, quando ele é a via possível de resgate da democracia em risco no Brasil. Se fosse expulso da vida politica, estaria aberto o campo para a ditadura do grande capital financeiro, para lideranças autoritárias e de cunho antidemocrático e antipopular – a que Moro e congêneres sao candidatos a títeres.

Não cabe na democracia um Judiciário que se tornou o oposto da Justiça, que se tornou sinônimo de arbitrariedade, truculência, cometidas por juízes de notório vínculos politico-partidario, que pretendem se valer da exorbitação dos seus cargos para praticar a perseguição politica contra quem obstaculiza o caminho do golpe, contra quem representa uma liderança popular e democrática, como é o caso único no Brasil de hoje, o caso de Lula.

Ou a democracia liquida essas víboras insinuantes do golpe jurídico-midiatico-policial, ou eles destruirão a democracia que está apenas em processo de construção, à qual Lula deu um conteúdo social de que ela carecia. Eramos uma democracia que pregava a igualdade diante da lei na Constituição, mas que convivia com ser o pais mais desigual do continente mais desigual do mundo.

Por isso é perigoso para a direita, que não consegue conviver com seu discurso de democracia social e politica, de resgate da auto estima dos brasileiros, da imagem do Brasil no mundo como líder na luta contra as desigualdades. Porque a direita caminha celeremente para um projeto de restauração conservadora, disfarçado de luta contra a corrupção e de desmonte do Estado brasileiro. Lula os chama para o convívio no marco da democracia, mas esse seria o caminho da derrota do projeto golpista da direita.

Lula se erige como o líder de um projeto que breca o golpismo e resgata o desenvolvimento economico com justiça social.

Por isso ele tornou-se insuportável para a direita que aderiu assim, com todas suas forças – jurídicas, midiáticas, financeiras, policiais – a um novo golpe contra a democracia. A existência da maior liderança popular e democrática da historia do Brasil é seu grande obstáculo. Por isso a defesa do Lula tornou-se, via ação golpista da direita contra ele, a defesa e o aprofundamento da construção da democracia no Brasil.

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros
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