domingo, 24 de abril de 2016

Michel Temer é traidor, fujão e covarde




Por Alex Solnick/Jornalista/Escritor

Já estou começando a ficar com pena do Michel Temer. Em vez de passar o inverno da sua vida ao lado da mulher –“bela, recatada e do lar” – quarenta e três anos mais nova, ex-miss Paulínia ele foi se meter nessa enrascada que o Eduardo Cunha lhe arrumou achando que ia ser moleza. Mas não é fácil ser presidente do Brasil. Ainda mais sem um único e escasso voto – como diria Mino Carta.

Não adianta os reaças dizerem aos petistas – ah, mas vocês votaram nele. Balela. Ninguém votou nele. Ninguém vota em vice. O último vice eleito, João Goulart, foi eleito em 1960 juntamente com Jânio, apesar de estar na chapa do adversário. Naquele tempo podia. Hoje o vice vem na chapa como uma espécie de brinde: vote em um e leve dois. Vem de cambulhada – como diria Marco Aurélio Melo.

Aquelas pitonisas do Oráculo de Delfos que costumam me visitar em sonho, lindas como a mulher do Temer (mas nem tão recatadas, nem do lar) com suas vestes decotadas, esvoaçantes e provocativas vieram essa noite me ver novamente.

“Como vocês estão lindas e cheirosas. Vieram para a posse”?

“Que posse”? perguntou a mais curvilínea, candidata imbatível a capa da Playboy do Olimpo.

“A posse do Temer”, respondi.

Deslumbrante e catita, ela deu uma boa risada e retrucou:

“Não vai ter posse. Ele nunca vai tomar posse”.

“Mas como? A Câmara já derrubou Dilma, o Senado tende a ir na mesma batida. Ele é o cara”.

“Na-na-ni-na-não” continuou ela, meneando o dedo indicador quase na altura do meu nariz. “Ele não vai tomar posse porque é traidor, fujão e covarde. E ninguém vai aceitar um presidente com esses três epítetos”.

Como ela estava muito próximo, achei que tinha outras intenções além de me trazer vaticínios, mas quando tentei arrancar-lhe um beijinho dos lábios ela desapareceu tão misteriosamente como surgiu.

Não consegui mais pegar no sono e fiquei pensando nos três epítetos do Temer.

A pitonisa tinha razão. Não há como não caracterizá-lo de traidor. Na hora em que a cabeça de chapa que o elegeu começou a correr perigo ele, em vez de ajudá-la, como cabe a cavalheiros gentis fez o oposto: ajudou a derrubá-la.

E sem abandonar o seu palácio com aquele nome estranho e horroroso, e sem abrir mão de suas mordomias.

Começou a se comportar como o marido que resolve se separar da mulher mas continua morando na mansão dela e sustentado por ela. E ainda manda todos os vassalos embora.

E continua traindo até hoje, tentando formar o que seria o seu futuro governo enquanto o atual, do qual ele é o vice, ainda não acabou. Com o detalhe sutil de que ninguém minimamente sério e honrado quer aceitar, menos o Serra que aceita ser ministro da Fazenda até do capeta. Traidor, mil vezes traidor! É uma pecha da qual ele não consegue e não vai se livrar nunca mais.

Fujão também ele é – mais uma vez a pitonisa acertou. Tanto é que, ontem mesmo, quando meia dúzia de gatos pingados armou um protesto na frente de sua casa da Praça Panamericana – ele é vizinho do Serra que mora logo adiante, o que é outro motivo para ter pena do Temer – ele fugiu, no ato, para Brasília, a pretexto de cumprir a sua “missão” de presidente interino enquanto aquela a quem traiu foi a Nova York contar ao mundo o que está acontecendo nessa terra abençoada por Deus chamada Brasil.

Antes da fuga de última hora, pois ele pretendia passar o fim de semana em São Paulo com sua eleita, a quem dedicou várias poesias em seu único e provavelmente último livro publicado ele perpetrou o que a “Folha” chama de “ofensiva fora do país contra a tese do golpe”.

Mais uma vez, a manchete do Frias não bate com a matéria. O que se lê abaixo dela não é uma ofensiva, é uma defensiva.

Ele diz que “não tem nada a ver com os deputados que votaram o impeachment”, o que é uma mentira mais deslavada do que as de Pinóquio, pois seus próprios correligionários, como o “honrado” deputado Pauderney se queixaram de sua ausência de Brasília nas horas que antecederam a votação para cabalar votos.

Temer também partiu para a defensiva afirmando que o STF tinha avalizado tudo aquilo, mais uma grossa mentira, pois o Supremo ainda não se pronunciou acerca do mérito desse dinossauro que o Cunha soltou na Praça dos Três Poderes e agora ninguém sabe o que fazer com ele – nem com o dinossauro, nem com o Cunha.

Do jeito que ele vai indo, logo logo – se é que eu conheço bem a imprensa brasileira – ele será abandonado por ela. (No mínimo por ser péssimo de entrevista e pior ainda como orador.)

Covarde ele também é, não enfrenta nenhuma situação de frente, nem ninguém, muito menos aquela a quem traiu, que é muito mais corajosa que ele.

Tanto é que em vez de dizer na cara dela tudo o que pensa dela ele mandou um correio elegante.

Claro, ele é o homem dos bastidores. Nunca disputou uma eleição majoritária. Ah, mas isso não importa, dirão os qua ainda o defendem (todos aqueles que sonham com uma boquinha no seu suposto governo) a Dilma também nunca tinha disputado e virou presidente e até se reelegeu.

Sim, mas o padrinho dela era o Lula, que tinha sido presidente duas vezes e saiu da presidência com 80% de aprovação popular e o padrinho do Temer é o Cunha, de quem é desnecessário dizer alguma coisa além do que já se disse e sabe.

Temer sempre agiu e age nas sombras e ninguém consegue ser um presidente nas sombras, a não ser presidente de um partido como o PMDB, cujas decisões mais importantes nunca são tomadas à luz do dia nem na frente de jornalistas.

A situação atual é totalmente diferente da do impeachment do Collor. Ninguém estava disposto a apostar um tostão furado nele nem ninguém iria à rua protestar contra a sua deposição, porque ninguém tinha nada a perder com isso, só a ganhar. Ele já entrou no governo tungando todas as contas bancárias e depois continuou dando shows de arrogância e de chantagem ao soltar na praça o quadrilheiro PC Farias, de triste memória para todos os empresários do país.

O comportamento do vice dele também foi o oposto do de Temer. Ele não pisoteou em cima do Collor nem quando o irmão deu aquela entrevista chula à Veja. Ficou na dele, quietinho, esperando a sua vez e só começou a formar o governo quando Collor saiu de cena. Não foi traidor, nem fujão, nem covarde, apesar das pechas que quiseram lhe pregar como – até mesmo – a de gay (porque seu nome em código era Shirley), como se ser gay impedisse alguém de ser um bom presidente da República.

A pitonisa-chefe tem razão: não vai ter posse.