sexta-feira, 15 de abril de 2016

Para Dilma, a reta final vem com intensa guerra psicológica. Por Luís Nassif

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por Luís Nassif, no Jornal GGN

Aqui a segunda parte da entrevista de Dilma Rousseff, ontem, para um grupo de jornalistas – dentre os quais o GGN.


Não bate com a realidade a informação de que ela esteve atrapalhada. O que se viu foi uma presidente respondendo a todas as questões, não fugindo de nenhum tema e, inclusive, enfrentando cascas de banana.



Quando um dos entrevistadores lhe disse que um grupo de donos de shopping iria fechar os estabelecimentos, em favor do impeachment, e se os considerava golpistas. A resposta, na bucha:



- Claro que são. Todos os cidadãos são iguais. Seja empresário ou político, se defende impeachment sem motivo, é golpista.



O jornalista insistiu, querendo saber se os manifestantes na rua eram golpistas. E ouviu uma longa e bem dada aula sociológica sobre o comportamento das pessoas na massa e como agentes políticos.



A seguir, a segunda parte da entrevista.



Sobre as eleições diretas como saída para a crise


Não vou ficar discutindo hipótese, que contraria o que acredito. Acredito que temos todas as condições de ganhar no Congresso Nacional. O resultado que obtivemos na Comissão, ao contrário do que foi cantado, é importante: 41 votos.Em projeção, dá 213. Ainda fica na faixa do conforto.



O governo vai lutar até o último minuto, por algo que acreditamos que seja factível, ganhar contra tentativa de golpe através de um relatório que é uma fraude, com momentos estarrecedores. José Eduardo Cardozo foi muito feliz ao dizer que a maior defesa a meu favor seja a má qualidade daquele relatório.



Em que pese que a Constituição diga o tamanho do meu mandato, respeito a proposta que contenha voto popular, respeito a visão diferente. O que não respeito e acho que nenhum de nós pode aceitar é com o impeachment sem base legal. Fere nossa democracia, é um atalho para o poder sem voto, dos que não vão se submeter a nenhuma eleição.



Sobre as projeções para domingo


Nessa reta final vamos sofrer uma guerra psicológica: eu tenho os votos, aquele não tem. O processo que tem um objetivo, de construir situação de efeito dominó.



É muito difícil neste momento chegar e dizer: um partido desembarcou do governo. Tem situações das mais variadas, de partidos que saem e as pessoas ficam. Tem variações, não tem relação linear entre líderes e liderados, característica do sistema político no Brasil, que torna extremamente complexa a análise da realidade e complexo o jogo político.

Judicialização do impeachment



Sabemos de todas as falhas do rito imposto pelo presidente da Câmara. O Ministro José Eduardo Cardozo fez uma fala muito clara sobre isso, na última vez que tivemos a oportunidade de nos manifestar.



Quando eu falo em honrar 54 milhões de votos, só uma parte da questão. Tem que honrar os dois votos, porque os dois participaram de um processo legítimo.

Sobre o estado de nervo



Durmo às 10 e meia e não tenho insônia e acordo com pique para andar de bicicleta.



Tenho grande competência quando aumenta a tensão. A minha fraqueza é quando relaxo, e aí fico muito normal. Para ser presidente, tem que ter dois degraus de tranquilidade a mais quando tensão aumenta. Quando relaxada, sou normal. Quando tensa, sou presidente da República.



Sobre a guinada à esquerda proposta por Lula


Lula na presidência teve um comportamento, fora outro. Eu tenho que ter uma posição que diga respeito ao todo, não mais a mim. Lula não é mais presidente, pode falar tudo o que ele pensa. Eu não posso colocar todas as posições pessoais minhas. Não posso ter posição que sei que uma parte da população brasileira não endossa. Presidente não pode estimular divisões.



Na crise econômica acirra disputas distributivistas. Entendo que as pessoas queiram mais. Mas quando cai a arrecadação não tem como dar mais.



Mas temos como estabilizar a país, tirar da crise, ampliar as políticas sociais.



O ajuste do Brasil foi diferenciado em relação a outras economias, especialmente as europeias. Ajustamos mas preservamos as políticas sociais.



Sobre o impeachment


Ao contrário dele (Eduardo Cunha), não tenho conta no exterior e nenhuma das acusações que recaem sobre ele. O que acho mais grave não é que ele presida o impeachment, mas que a proposta que está na mesa tenha ele como vice. Ele será o vice-presidente da República e tem com o atual vice uma relação de profunda sociedade política.



Sistema político brasileiro hoje se mostra muito receptivo a expedientes golpistas institucionais porque é frágil. Precisamos de reforma política que defina em que condições se aceitará a formação dos partidos, o modelo de voto, como se dará a relação parlamento-executivo.



Logo após as manifestações de junho de 2013 acreditei que haveria condições de convocar uma assembleia para discutir a questão política.



O modelo político está perdendo cada vez mais a capacidade de não ser permeável a esse tipo de crise. Todos os que sentarem nessa cadeira enfrentarão isso em maior ou menor grau, porque não é algo que alguém consiga modificar.



A versão de que a política é ruim e suja não contribui, só estimula o apoliticismo que serve a interesses políticos pavorosos. Uma das características estarrecedoras da manifestação de 13 de março foi a rejeição da política. Essa característica nunca levou a nada de bom.



Historicamente essa posição levou a regimes de exceção. Faz parte do processo a despolitização, a rejeição da atividade político o surgimento de salvadores da pátria.



Sobre reforma fiscal


É muito recessiva a redução do gasto do governo. Então não sai da crise sem alguma recomposição da receita. Não dá para botar um lado só pagando o pato. Os que falam em pagar o pato são aqueles que têm na arrecadação do sistema S uma das fontes de seu financiamento.



Temos tido com a CNI uma das melhores relações, porque tem transformado a arrecadação do sistema S em três coisas fundamentais: educação técnica, pesquisa tecnológica e Instituto de inovação



Não estou pensando em aumentar investimentos do governo, mas não pará-los. Pedimos ao Congresso que certos investimentos não parem, porque os custos para o país são enormes.



KC 390, se vendermos, entrada de US$ 1,1 BI anual. Estou na fase final. Passo a não ter recursos para completar. É a poupança burra. Como isso tem vários outros processos em recursos.



Tenho restos a pagar empenhados e medidos, que tem que ser pagos.



Nós fizemos corte brutal, R$ 120 BI de despesas discricionárias e não discricionárias. De discricionárias 105 e 25 de obrigatórias.



Não discuto desvinculação das receitas orçamentárias.