segunda-feira, 30 de maio de 2016

A missão maior de Dilma Rousseff



CELSO RAEDER/Brasil 247


A presidente Dilma Rousseff sabe que dificilmente voltará a governar o país. Poderá até ser reempossada no cargo. Mas governará com que Congresso? Com que percentual de apoio popular? Com que canal de diálogo no Supremo, se os "caras" estão putos com ela? Que equipe nomeará, com a certeza de que o escolhido não será o próximo investigado na Lava Jato? Definitivamente, Dilma não governará mais o país. No entanto, por mais paradoxal que seja, o Brasil precisa que Dilma leve sua luta até o fim.

Dilma Rousseff não é uma política carreirista. Para ela, ficar inelegível por oito anos tanto faz como tanto fez. Com ela não tem acordo nem acerto. Sua luta é solitária. Ela não precisa nem de Lula e muito menos do PT. Aliás, de certo modo, eles até atrapalham. Na posição em que se encontra, Dilma escreve um importante capítulo na História do Brasil. Não é o Moro nem o Janot que estão passando esse país a limpo. É ela!

É o que está registrado nas várias conversas entre o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, e mandarins da política brasileira que se perpetuam no poder. Romero Jucá, José Sarney, Renan Calheiros, Pauderney Avelino, Aécio Neves, Eduardo Cunha, Mendonça Filho, todos unidos para apear Dilma do poder, com o único propósito de salvar suas peles carcomidas.

Os diálogos gravados revelam a estratégia desses políticos asquerosos: afastar a presidente para desmobilizar as ruas, limpar a barra na base da conversa com os "caras" do STF e aprovar leis que alterem os mecanismos de concessão de delação premiada. No âmbito do Planalto, o ministro da Justiça se articula para acabar com o sistema democrático de escolha do procurador-geral da República, nomeando-se aquele que mais agradar aos interesses do Temer. O estratagema poderia dar certo, não fosse a obstinação de Dilma em brigar pela presidência. Se ela renuncia, legitima Michel Temer. Se permanece na luta, o transforma num cafetão de cabaré.

O senador Antonio Anastasia e seus pares indecentes não terão qualquer pudor em cassar o mandato de Dilma Rousseff em definitivo. Lá estarão pessoas citadas inúmeras vezes no curso da investigação da Lava Jato e, também, nas gravações de Sérgio Machado. Falarão em decência, moral e honestidade, apontando seus dedos necrosados pela corrupção para as câmeras de TV. O rito de acusação e defesa será cumprido. Mas José Eduardo Cardoso, que defende a presidente, sabe que perde seu tempo diante de uma farsa que já tem até data marcada: 2 de agosto.

Nesses pouco mais de dois meses até o desfecho da maior crise política no Brasil pós-ditadura, Dilma Rousseff pode tomar decisões capazes de mudar o rumo dessa história. A mais importante é a retomada do controle do processo político, assumindo o protagonismo das ações exigidas pela sociedade. Mas, para isso, terá de deixar seu desejo de ocupar a presidência em segundo plano. Para ser mais didático, o que proponho é que Dilma Rousseff empunhe a bandeira da realização de novas eleições, em janeiro de 2016, não apenas para presidente, mas também para deputados federais e senadores. Esse deveria ser o compromisso um e único do seu discurso daqui para frente.

Ao assumir esse compromisso, Dilma trará o povo para o seu lado. Milhões de brasileiros que foram às ruas pelo fim da corrupção estão ainda mais revoltados com o que surgiu após o afastamento da presidente. Dilma precisa fazer um pacto com a sociedade, que não está nada disposta a perder conquistas sociais importantes, apenas para atender aos investidores internacionais atraídos pela política econômica de Henrique Meirelles. A corrupção é um câncer instalado num organismo em estado de metástase. Isso já ficou claro nestas duas semanas de instalação de um governo de azougues.

As investigações da Lava Jato correspondem a, no máximo, 1% de toda corrupção praticada no país. Isso decorre das estruturas corroídas das instituições públicas, que precisam passar por reformas que assegurem transparência e lisura nas ações. Dilma Rousseff tem exatos dois meses para mobilizar o país para essas reformas. Uma pauta de compromissos para o próximo governo, eleito em 2016, que reduza o número de partidos, que acabe com as castas de parentes na política, que democratize o processo de escolha de membros do Poder Judiciário, que torne a economia um modelo de desenvolvimento nacional, protegendo empresários da burocracia e do achaque, ao mesmo tempo em que preserva direitos dos trabalhadores.

Dilma lutará por seu mandato. É direito dela. Mas pode fazer algo muito maior por ela e pelo Brasil se enfrentar o Sistema, essa hidra de sete cabeças, que vai engolir o Moro e o Janot.