quarta-feira, 1 de junho de 2016

Enfim, a contadora e informante infiltrada da Lava Jato foi ouvida oficialmente


Marcelo Auler

A contadora de Youssef, Meire Poza, passou quatro horas prestando depoimento na Procuradoria Regional da República em São Paulo.

Enfim, a contadora falou. Por mais de quatro horas seguida, Meire Bonfim da Silva Poza, que entre 2012 e 2014 trabalhou como contadora do doleiro Alberto Youssef, pela primeira vez prestou um depoimento oficial. Nele, narrou seu envolvimento com o doleiro e deu detalhes de como se aproximou da Força Tarefa da Operação Lava Jato tornando-se uma verdadeira “infiltrada” entre os investigados. Depois, tornou-se oficialmente testemunha do juízo a pedido do titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sérgio Moro.

Foi uma relação extremamente heterodoxa, sem registros oficiais. Mas muito intensa. A tal ponto que delegados e agentes federais queriam instalar um microfone subcutâneo para ela gravar todas as conversas, sem necessidade de transportar aparelhos escondidos. Ela recusou a proposta por medo. Hoje, Meire se sente abandonada pelos policiais federais que imaginava que tinham se tornado “amigos”. Foi intimada a prestar depoimento em um inquérito no qual suspeita que será indiciada e confessou ter medo de retaliações que possam atingi-la ou à sua filha. Pediu oficialmente proteção.

O depoimento de Meire, ainda mantido em reserva, foi prestado na segunda-feira à tarde (30/05), no gabinete do procurador regional da República de São Paulo, Osório Barbosa. Contou com a participação/assistência do advogado Humberto Barrionuevo Fabretti, doutor em Direito, criminalista, professor de Direito Penal da Faculdade Mackenzie, em São Paulo, e membro do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim).

Na revista CartaCapital a fotografia do delegado Marcio Anselmo Adriano, fantasiado de MC, que Meire leva no celular: Intimidade entre os dois.

O encontro foi feito a partir de uma iniciativa deste blog. Quando, na semana passada, nos encontramos pessoalmente com Meire, ela lamentou que todos que lhe procuraram “tiraram uma casquinha de mim e nada fizeram para me ajudar”. Falou dos seus receios e medos e da vontade de ter algum tipo de proteção. Diante disto, recorremos ao procurador Barbosa, que conhecemos desde os anos 90 quando ele atuava em Manaus, na primeira instância. A ideia era tomar a termo o que ela tinha a dizer e depois distribuir o depoimento aos órgãos que possam tomar providencias.

Ao advogado Fabretti chegamos através de amigos comuns e ele se dispôs a acompanhar a causa gratuitamente. Ele a acompanhará nesta quinta-feira à Superintendência do DPF em São Paulo.

Até então Meire contava com o auxílio do advogado Haroldo Nater, de Curitiba, que também a atendeu gratuitamente. Foi ele, como falamos na reportagem “Quem com ferro fere… Força Tarefa da Lava Jato pode tornar-se alvo de delação premiada”, em 30 de abril, quem encaminhou ao então ministro da Justiça, Eugênio Aragão, cópia de mensagens que Meire trocou quando era colaboradora infiltrada da Força Tarefa da Lava Jato.

Além das mensagens divulgadas pela revista CartaCapital, na edição com data de capa de 27 de abril, que circulou a partir na sexta-feira, dia 22/04, com a reportagem “Os segredos de Meire“, o advogado entregou outras. Mas não levou e-mails como os que a revista teve acesso. Neles estão diálogos entre Meire agentes e delegados federais, além de procuradores da República. Alguns mostram uma relação mais intima do que a normal entre uma informante de agentes do Estado. Ela tem, inclusive, como consta da revista, fotos pessoais destes agentes, entre as quais a do delegado federal Márcio Anselmo Adriano fantasiado de MC.

Youssef e o grampo que descobriu na cela da SR/DPF/PR

Grampo na cela – Curiosamente, Meire jamais foi ouvida sobre sua participação na Lava Jato. Tampouco indiciada por crimes que praticou na lavagem de dinheiro e emissão de notas frias. Na ocasião em que colaborou com as autoridades, procuradores da República chegaram a lhe propor uma Delação Premiada. Os delegados federais opinaram contra. Entenderam que seu depoimento como testemunha tinha mais força do que através de uma delação. Ela fiou-se nas promessas de que jamais a indiciariam, embora em determinadas conversas tenha admitido que se achasse ré. Mas as promessas parecem não terem sido cumpridas. Tinha que estar no papel, o que não aconteceu.

O único depoimento oficial que ela deu foi a um delegado que ela admite ter sido Alfredo Junqueira, da Coordenadoria de Assuntos Internos (Coain) da Corregedoria Geral (Coger) do DPF. Ele a ouviu após o então ministro Aragão determinar ao diretor da Polícia Federal, Leandro Daiello, o testemunho dela sobre o que tinha visto e ajudado a fazer.

Junqueira a ouviu na mesma sala do aeroporto de Congonhas onde esteve Luis Inácio Lula da Silva, em 4 de março passado, quando o ex-presidente foi levado coercitivamente pela equipe da Lava Jato para prestar depoimento. Mas, ainda segundo Meire, o delegado, que preside uma sindicância sobre o Grampo encontrado na cela de Alberto Youssef em abril de 2014, só queria informações a respeito deste caso.

Meire diz ter afirmado que sabe que o grampo foi colocado pela Polícia Federal, mas jamais terá como provar tal fato, por isso não tinha muito a contribuir. Segundo ela, foi o ultimo depoimento colhido pelo delegado. Por informações levantadas pelo blog há 15 dias em Curitiba e em Brasília, a Sindicância estava pronta para se tornar um inquérito no qual deveriam ser indiciados um delegado e três agentes da Polícia Federal de Curitiba. Oficialmente, porém, nada aconteceu e ninguém ainda foi indiciado. O resultado dessa sindicância foi prometido ao juiz Sérgio Moro pelo corregedor do DPF, delegado Roberto Mario da Cunha Cordeiro, para o mês de novembro passado. Até hoje não foi entregue e não houve nenhuma nova cobrança.

Venda de um imóvel – Nesta quinta-feira (01/06) ela estará na Superintendência do DPF em São Paulo para prestar depoimento. Segundo ela levantou, trata-se de um inquérito que investiga a venda que ela fez de uma loja comercial de Youssef. Como o imóvel estava em nome de terceiros (laranjas), ela o transferiu para seu nome e fez a sua comercialização. A venda, segundo explica, foi a maneira que encontrou de conseguir dinheiro, após a prisão do doleiro em 17 de março de 2014, para pagamentos das despesas da empresa de Youssef na qual ela trabalhava – GFD.

Parte do que arrecadou serviu ainda para pagar a um cliente seu, que dias antes da prisão de Youssef, havia combinado de trocar o cheque por dinheiro vivo, mediante comissão de 4%, de forma ao cliente não ter que declarar aquela verba. O doleiro depositou o cheque e, em seguidas foi preso e teve as contas confiscadas, sem repassar o dinheiro ao cliente de Meire. Toda esta operação, segundo ela, foi narrada não só aos policiais federais, mas em juízo, quando ela depôs como testemunha.

A defesa de Youssef, a cargo do advogado Antonio Figueiredo Basto, chegou a pedir providencias em juízo com relação a este imóvel e alega que nada foi feito. Meire garante que prestou contas do dinheiro e do que pagou com o mesmo. Mas, pelo que se está vendo, somente agora, depois que Meire veio a público revelando a sua relação com os operadores da Lava Jato é que houve a iniciativa de investigá-la.

Depoimento será distribuído – O procurador regional, Osório Barbosa, aguarda apenas a contadora Meire e seu advogado apresentarem cópias dos documentos que ela possui para remeter o depoimento a diversas autoridades entre as quais, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o sub-procurador Mário Bonsaglia, que coordena a 7ª Câmara da PGR, onde cuidam justamento do controle externo da Policia Federal, os procuradores encarregados deste controle nos estados de São Paulo e Paraná, o diretor-geral e o corregedor do DPF, o Conselho Nacional de Defesa dos Direitos Humanos e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos para que providencie uma forma de proteger a contadora. Meire ainda deverá ser convidada a depor na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.