segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Crônicas de Tuntum: Segura, Gilmar...


Por João Batista Rodrigues DE Andrade

Para Geovanni Gonçalves

Zé da Divina não era craque, eu também não. Claro, éramos goleiros. Ninguém se atreve a dizer que goleiro algum seja craque; frangueiro, sim. Barbosa, da Copa de 50, que o dissesse. Pouca gente se lembra de quem houvera perdido gol naquela partida, mas de que Barbosa tomou dois, ah, isto ainda sibila nos ouvidos dos que a distância – pelo rádio - acompanharam a porfia ou que mesmo estiveram presentes ao Maracanã. Aquilo é passado. Zé da Divina era cognominado de Gilmar e eu, quando muito, podia ser chamado de Castilho, reserva daquele, nas copas de 58/62. Craques entre nós só Piúdo, Messias e Ribamar do Mestre Ribas, Ivo e tantos outros, para falar só de alguns, mesmo porque os maiores, como Zezé, Oscar, Wilton, João Velho e sua trupe da gloriosa Piçarra ou ainda o pessoal do Campo Velho, compunham o time dos grandes, ao menos no tamanho.

Numa manhã já cinquentenária jogávamos na Praça São Francisco, a qual era limpinha e mal deixara de ser cemitério. Eu e Zé da Divina partíramos os times, naquele velho tipo: eu fico com fulano, e eu, dizia o outro, tiro beltrano; e assim ia até o fim, mas respeitando-se a quantidade, e caso fosse necessário, dava-se um sujeito forte ou “bom” por dois mais fracos. Naquela manhã azul e quente jogávamos com uma bola Pelé, a qual devia ser do Ilídio Fialho. A pelota era novidade, porque estávamos em 1962/63. Pênalti contra o meu time, preparava-se para a cobrança Ribamar do Mestre Ribas. Nessas ocasiões o goleiro lampeja todo tipo de oração, faz mandinga e zoa do cobrador. Ele foi direito ao assunto: meteu uma bomba... caí de lado, mas defendi... Em verdade a bola bateu em meu pescoço e por um instante fiquei sem fôlego, mas pensei: “uipe, urra, arruma outro time para jogar com nossa linha!”. Não me recordo qual dos goleiros ganhou aquela peleja , e isso pouco importa tantos anos depois, mas seja como for, ainda somos Gilmar e Castilho, ao menos na memória e fantasia nossa de quando éramos meninos.

P.S. Um dia, há cerca de 20 anos, encontrei Gilmar dos Santos Neves numa rua em São Paulo. Sorri como Monalisa, olhei para ele e deixei passar. Bem que eu podia ter dito que ele era nosso ídolo do tempo de criança, talvez porque eu tivesse mesmo incorporado, no meu retrato de menino-goleiro, a figura de Castilho.

João Batista Rodrigues DE Andrade é Advogado/Professor/Doutor/Natural de Tuntum/Reside em São Paulo.