domingo, 30 de outubro de 2016

Começamos a ocupar o espaço do PT, diz presidente do PSOL

Luiz Araújo, presidente do PSOL, em audiência no Senado
Luiz Araújo, presidente do PSOL, em audiência no Senado

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A BELÉM/Folha de São Paulo

O presidente nacional do PSOL, Luiz Araújo, escolheu acompanhar o segundo turno em Belém, a sua cidade natal. Mas o motivo é outro: o candidato do partido, Edmilson Rodrigues, tem mais chances de vitória aqui do que no Rio com Marcelo Freixo, segundo pesquisas.

Em entrevista à Folha na sexta (28), Araújo diz que o PSOL começou a ocupar o vácuo deixado pelo PT, seu antigo partido, mas que não conseguirá reconstruir a esquerda sozinho.

Professor de pedagogia da UnB (Universidade de Brasília), Araújo, 53, deixou o PT junto com seu grupo político em 2005, ano em que estourou o escândalo do mensalão. A seguir, a entrevista concedida no comitê de campanha do PSOL em Belém.

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Balanço eleitoral

Essa talvez tenha sido a eleição mais difícil para a esquerda. Apesar de a gente ter saído do PT há 11 anos, o desastre que a eleição foi pro PT atingiu toda a esquerda.

Radicalizou-se um eleitorado mais conservador, principalmente as camadas médias nas cidades. Por um lado, [há] um ceticismo com a política, o que nos prejudica, porque a politização nos ajuda como candidatura de esquerda. E, por outro lado, o crescimento de partidos com candidaturas mais conservadoras stricto sensu. Os Bolsonaros da vida.

Mas nós crescemos também. Foi um bom resultado no meio de um péssimo resultado. A eleição foi uma vitória da direita, mas, olhando pelo lado da esquerda, o PT perdeu protagonismo no país inteiro, e o PSOL começou a ocupar esse espaço, guardadas as suas proporções.

Quem disputava esse espaço? PC do B, que tinha uma vinculação mais estreita com o PT; a Rede, que teve uma disputa contraditória porque se dividiu muito no dia anterior à votação do impeachment e não teve candidaturas muito competitivas.

Por esse lado, foi muito positivo: chegar a três segundos turnos [Rio, Belém e Sorocaba (SP)], quando o PT chegou a um só segundo turno [em capitais]. Lógico que ganhar ou não onde estamos disputando o segundo turno fará muita diferença na avaliação.

Segundo turno no Rio

A gente não tem uma aliança com a Globo. O que preside a Globo bater no Marcelo Crivella? Um problema comercial. Crivella assumindo tem o efeito colateral de turbinar as finanças da principal concorrente da Globo [a Rede Record].

É lógico que houve uma mobilização desses setores que não gostam muito do Freixo, mas o Crivella pode ser um tiro no escuro. Não é um plano de alianças. Os interesses olham para as candidaturas e dizem: qual o mal menor pros meus interesses? É lógico que a afinidade ideológica da Globo com PSDB seria maior.

Mas acho que isso é bom, educativo. Durante um período no PSOL, as pessoas não conseguiam enxergar que o segundo turno é um plebiscito.

Reconstrução da esquerda

A esquerda está num momento de reorganização. Temos o passivo de uma experiência que não deu certo pelo campo econômico. A nossa crítica ao governo Lula e o PT é de que não foi radical o suficiente no seu programa, fez concessões demais.

Enquanto essas concessões foram suportáveis pela elite, o PT conseguiu governar. Quando não tinha mais dinheiro pra isso, optou por fazer os ajustes que o [presidente Michel] Temer está fazendo com muito mais propriedade e capacidade política, digamos assim.

Mas também [de reorganização] pelo campo ético, de práticas da chamada governabilidade, o eufemismo inventado no Brasil para corrupção e compra de apoios em troca de cargos.

A pergunta é: que tipo de esquerda pode ser reconstruída? Algumas pessoas dentro da esquerda dizem: o problema do PT foram as alianças. O PSTU, por exemplo: "Melhor sozinho do que mal acompanhado".

O PSOL não pensa assim. Achamos que existe um segmento da esquerda dentro do petismo e em outros partidos que continuam lutando, defendendo teses, lutando em movimentos sociais e que não estão no PSOL.

O PSOL não basta para reconstruir a esquerda. Nós assumimos um protagonismo recentemente, mas sozinhos a gente não consegue reconstruir.

Então essas experiências que estamos tendo fazem parte desse processo: ter políticas de alianças que não sejam troca de cargos, trazer segmentos que estavam na órbita do PT para apoiar nossos candidatos, ter sido contra o impeachment mesmo fazendo oposição ao governo Dilma.

Ascensão do PC do B no Maranhão

É uma questão delicada. O governador Flavio Dino até mandou apoio pro Edmilson, se conhecem. O PC do B está nos apoiando aqui no segundo turno.

Mas eu não acho que seja um projeto de esquerda lá. Tem um filme do Glauber Rocha, "Maranhão 66". Foi o primeiro filme de propaganda eleitoral do Brasil, sobre a vitória do José Sarney, em 1966. Nesse filme, tem um discurso do Sarney mostrando essa desigualdade, essa pobreza que tinha no Maranhão e que ele ia acabar com as oligarquias.

O que ele fez depois? Criou uma oligarquia em torno dele, cooptando a oligarquia a partir do aparato do governo. O meu medo é que o Dino esteja fazendo um caminho parecido. É um risco. Eu não vou comparar porque seria uma grosseria. Ele é muitas vezes melhor do que o Sarney. Ele tem uma trajetória, mesmo que, nos últimos tempos, tenha ficado muito pragmático.

Que 46 prefeitos são esses [do PC do B no Estado]? São satélites do campo do governo, não foram 46 comunistas eleitos. Nem na China nem lá. Foram 46 prefeitos conquistados pela relação com o governo num Estado muito dependente, porque as prefeituras precisam estar do lado do governador pra ter qualquer coisa extra pra fazer, que não seja o FPM (Fundo de Participação dos Municípios). Não acho que foi tão relevante como ele apresenta.