terça-feira, 22 de novembro de 2016

Pastor Ariovaldo Ramos: na semana da consciência negra, retomamos a questão da escravização


Todas estas questões têm de ser discutidas à exaustão. Contudo, temo que estejamos deixando de lado uma questão de fundo, que nos levaria a discutir um elemento cultural, absolutamente, relevante: a negritude brasileira.

Na semana da consciência negra, de modo geral, retomamos a questão da escravização, essa página ignominiosa de nossa história; também, retomamos a questão da reparação ao trabalho escravo que passa por políticas afirmativas, entre elas, as cotas. É, outrossim, trazido à tona a questão da intolerância religiosa, por causa do que sofrem as religiões de matriz africana; e, soma-se a tudo, a questão das terras dos quilombos e do acesso dos quilombolas à plena cidadania, além do terrível genocídio da juventude negra, na periferia de nossas cidades, via violência policial, dirigida por um racismo inconfessado, mas, cada vez mais agressivo.

Todas estas questões têm de ser discutidas à exaustão. Contudo, temo que estejamos deixando de lado uma questão de fundo, que nos levaria a discutir um elemento cultural, absolutamente, relevante: a negritude brasileira.

Todos reconhecemos a influência, de origem afro, no que chamamos de cultura brasileira, mas, penso que já é tempo de trabalharmos o que tenho chamado de negritude brasileira; isto nos levaria a uma agenda propositiva, sem abandonarmos a agenda histórica.

O que chamo de negritude brasileira é o conjunto de nossa contribuição para a formação da cultura brasileira, e acrescento, não há como negar a negritude brasileira como o fator denotativo da cultura nacional. Não, apenas, porque somos maioria na nação, mas, porque temos dado o tom dessa cultura, em todos os níveis.

Lembro-me de ter lido uma entrevista de um famoso músico internacional que, no anúncio de sua primeira visita ao Brasil, foi perguntado sobre o que sabia da música brasileira, ele, então, citou a percussão brasileira de forma muito elogiosa. O que é fato. A influência dos vários tambores, como os da Bahia, recuperados por movimentos como Oludum; ou tambores de Minas, retomados por Milton Nascimento; e, claro, a percussão carioca, conhecida mundialmente, e muitas outras expressões desse envolvente ritmo nas várias manifestações do folclore musical brasileiro.

Contudo, nossa influência não se atém ao som original, mas, passa por Pixinguinha, entre outros, que construíram a música instrumental brasileira; passa por Cartola, Lupicínio, e tantos outros que construíram a poética nacional; passa pela culinária, de forma marcante e definidora do que seja a gastronomia brasileira.

A negritude brasileira passa por Machado de Assis, que contribuiu para dar forma à contribuição brasileira para a lusofonia, passa por Lima Barreto, por Castro Alves, por José do Patrocínio; passa por autores, compositores, mestres, e por atores como Grande Otelo e tantos outros, em todos os matizes da construção da nacionalidade, seja na arte, seja na literatura.

O Brasil é, culturalmente, uma nação afro-européia com grande ênfase no elemento afro, que ganhou contornos específicos no Brasil: aqui, por exemplo, se define a Capoeira, surge religião, fruto de sincretismo; por isso, urge trabalharmos o que tenho chamado de negritude brasileira, porque, aqui o termo afro-descendente não satisfaz, a negritude desenvolvida em solo brasileiro tem características que lhe concede peculiaridade, para não dizer, exclusividade.

Entendo, inclusive, que grande parte da agressividade racial, por parte da elite que, para isso, instrumentaliza a força policial, passa por tentar por fim à inegável realidade de que o Brasil é um país que tem como denotativo de sua cultura, a sua negritude.

Nosso luto vem do verbo lutar.

Do Blog Nocaute/São Paulo