sexta-feira, 17 de março de 2017

Dr. Cleones Cunha honra Tuntum em São Luís

Desembargador Cleones Cunha e Vereador Osmar Filho

Ao receber o título de cidadão ludovicense esta semana concedido pela Câmara de Vereadores de São Luís através de proposta do Vereador Osmar Filho(PDT), o Desembargador Cleones Cunha fez um discurso memorável e de alto valor literário para agradecer a honraria recebida que publicaremos aqui com sua devida vênia.

Independente das titulações recebidas durante a vida como magistrado, professor, escritor e, agora, Presidente da Alta Corte Maranhense, Dr. Cleones Cunha tem honrado a cidadania tuntunense ali na capital do Maranhão e por onde tem passado, fazendo jus a grande festa desta semana que reuniu sua parentela, seus pares na magistratura, funcionários do TJ, políticos, religiosos e amigos quando do recebimento do título lhe conferido pela Casa Legislativa de São Luís.

Não vou antecipar o bojo do discurso porque seu conteúdo e sua forma falam por si,  mas gostaria de dizer, ainda, que o Dr. Cleones Cunha  foi parceiro de orações nas tardes desta cidade amada com Dona Maria Secretária(minha tia-mãe) na Rua São Raimundo e muitas vezes na condição de adolescente quando vinha passar férias de Teresina  presenciava  o apego dele pela religiosidade da minha Tia, amiga da família Cunha desde de Santa Filomena(onde eu nasci, também).

Publicar este discurso memorável e de considerável valor literário no Blog Bate Tuntum tem sido uma forma, também, de comunicar ao homem, professor, juiz, desembargador, escritor e, agora, ludovicense que Tuntum tem se sentido honrada em São Luís pela vida simples de sua personalidade pública que tem feito da vida vários ministérios.

O discurso do Dr. Cleones Cunha:


"Excelentíssimo Senhor Vereador Astro de Ogum, Presidente da Câmara Municipal de São Luís do Maranhão e desta solenidade;

Excelentíssimo Senhor Vereador Osmar Filho, autor da proposta de concessão do título de cidadão ludovicense a este tuntunense que vos fala;

Excelentíssimos Senhores Vereadores,

Senhores Desembargadores, juízes de direito e servidores do Poder Judiciário,

Amigos e familiares que me prestigiam nessa solenidade;

Senhoras e Senhores; 

Nasci no então povoado de Santa Filomena (hoje município de Santa Filomena do Maranhão), do recém-criado Município de Tuntum. No meu lugarejo de única rua, sem água encanada, sem energia elétrica, havia uma pequena capela de palha, e um grande tesouro, a única professora, minha tia-avó, Lourdes Mourão. E por causa dela sempre posso fazer minhas as palavras do poeta cearense Figueiras Lima:

Era menino.
Um dia, olhei o céu: longe, as estrelas.
E eu tive uma vontade imensa de colhê-las.
Estava desvendado o meu destino.

Este é um momento singular. A vida é uma sequência de momentos, mas somente os singulares deixam marcas, e são destes que fala o artista da poesia: há momentos que valem toda a vida. Jamais esquecerei a emoção deste momento, o momento em que me torno cidadão de São Luís. 

O sentimento que me invade a alma neste instante é o de gratidão. Gratidão a Deus! Gratidão aos senhores vereadores que me outorgaram o título de cidadão de São Luís, em especial ao Jovem Vereador Osmar Filho, autor da proposta que deu azo a esta solenidade de tamanha importância para mim e que segue os passos do seu pai, juiz Osmar, na seriedade e competência com se conduz na vida pública.. Gratidão à minha querida família (Olinda minha companheira, minhas irmãs Salete e Stella, meus irmãos Tema e Kleber, e suas mulheres Daniela e Zezé, e a todos os meus sobrinhos-filhos e netos, que homenageio nas minhas netas Alice e Maitê, ludovicenses, que hoje, exatamente hoje, aniversariam completando seis anos de idade. Aos meus amigos, em especial os desembargadores, juízes e servidores do Poder Judiciário do Maranhão.

São todos copartícipes deste momento de alegria e júbilo na vida de um garoto simples do interior, que aqui chegou em março de 1974, em busca de conhecimento. Apesar de ousado e destemido, São Luís era uma metrópole para aquele adolescente de quinze anos

Vejo nesta data – 14 de março – uma feliz coincidência. Foi num mês de março que vim a São Luís pela primeira vez. Caíam então as mesmas chuvas fartas que ora banham a Ilha do Amor. Em verdade, aquelas águas de março que escorriam ladeiras abaixo, lavando as pedras de cantaria que calçam o centro da cidade, que viria ser patrimônio cultural da humanidade, contribuíram para o cenário misterioso, fantástico que se desenhava para aquele menino curioso e sonhador...

São Luís recebeu-me de braços abertos. Apresentou-me a vida. Ofereceu-me oportunidades, abriu-me as portas da Universidade Pública, deu-me futuro. Logo, logo, eu já conhecia a rua do Passeio, e na esquina da Rua da Inveja, estava fincado o Colégio Dom Bosco do Maranhão, no qual estudei, à Praça Pedro II, que sediava o Palácio dos Leões, o La Ravardiere e o Clóvis Beviláqua, sedes do Executivo Estadual, do Municipal e do Poder Judiciário, respectivamente. E a Catedral da Sé de Nossa Senhora da Vitória. O Largo dos Amores, a fonte do Ribeirão. E tudo era tão grandioso! Em frente ao Palácio do Tribunal de Justiça, parei um dia e me prometi: vou estudar Direito. Na verdade estava sonhando, vaticinando o que a mim mesmo parecia quase impossível. 

Daquele dia em diante, São Luís era mais e mais a minha cidade. Nossa intimidade era tamanha, que parecia ter eu nascido sob o sotaque das matracas e dos pandeirões do Bumba-meu-boi, quantas noites nos arraiais nas festas juninas. Minha identidade cultural é há muito a desta capital do reggae, a da Ilha do Amor, em que pese jamais ter esquecido a minha singela cidade de Tuntum.

Em São Luís construí minha personalidade, naturalmente forjada pelos valores morais passados pelo exemplo dos meus queridos pais seu Seabra e dona Maria Helena, desde muito, muito cedo. Esses valores também foram implantados em mim pelos frades capuchinhos, que participaram intensamente na construção da vida religiosa, social e cultural da minha cidade de origem. Os mesmos frades capuchinhos que participaram da fundação desta cidade de São Luís em 1612, acompanhando o senhor de La Ravardière.

Em São Luís, optei e construí minha carreira profissional, naturalmente via concurso público (filho de pobre não tem outro caminho) num primeiro momento, para o Ministério Público e professor da Universidade Federal do Maranhão, e depois para juiz de Direito, minha vocação. E ainda hoje, esta cidade é testemunha, orgulho-me de ser juiz e busco honrar e dignificar com todas as minhas forças tal mister.

Muita coisa mudou de lá para cá. Hoje, São Luís já se me apresenta menos grandiosa. A maturidade, o conhecimento e o meu senso de juiz vocacionado me escancaram dia a dia as mazelas da bela Ilha de Upao-Açu, a exemplo de tantas crianças e adolescentes que, sem lar e fora das salas de aula, consumindo drogas, usadas por facções criminosas, praticam os mais variados delitos, gerando a grave violência que assola não só esta cidade, mas todo o Estado do Maranhão, o Brasil. Nem por isso, São Luís é menos amada, menos cultuada, menos cantada, menos magnética, menos misteriosa, menos enigmática., por que, como diz César Nascimento: o amor nasceu aqui

Para ser justo, a falta de Educação ou a Educação insuficiente/precária, à qual me refiro, contudo, não é especialidade nossa, mas de toda a Nação, e remonta há quinhentos anos. Nós, brasileiros, temo-nos mostrado incompetentes para estabelecer/priorizar uma educação de qualidade, capaz de transformar nossos destinos, daí por que somos algozes e vítimas dessa mesma incompetência/incapacidade. Daí por que caminhamos lado a lado com a corrupção, a má gestão, a violência, tudo atualmente agravado pela atual conjuntura econômica e política, andando mesmo a passos largos para uma convulsão social, infelizmente, a exemplo do que ocorreu aqui há alguns anos, ou em Manaus, Natal e mais recentemente no estado do Espírito Santo. Aonde iremos nós? Para onde seguiremos? Que país deixaremos para os nossos filhos e netos, senhoras e senhores?

Não poderia eu dispensar este momento diante do Poder Legislativo Municipal de São Luís para fazer as tais reflexões. Apesar de sermos todos responsáveis pelas nossas próprias mazelas, os senhores vereadores de São Luís, pelo menos no respeitante à problemática desta cidade, têm mais vez e voz que o cidadão comum, esses mesmos que os elegeram representantes no processo democrático. Mas que nenhum de nós se exclua, pois, da responsabilidade que a nós a Vida, o Dever e o Ideal se nos impõe, pois somos todos, cidadãos e membros dos poderes Judiciário, Legislativo e Executivo, responsáveis. Fácil não é, sabemos. Mas, a vontade move o mundo e juntos seremos mais. Sei que os senhores vereadores lutam a cada dia pelas melhorias de nossa querida São Luís do Maranhão, por isso os parabenizo. Nós ludovicenses confiamos nos senhores.

Mas, voltemos à alegria e ao júbilo que a ocasião demanda. Senhoras e Senhores, estou eu aqui neste instante, quando exerço o nobre, mas difícil exercício da Presidência do Poder Judiciário do Maranhão, transmudado naquele jovem rapaz vindo do interior, que amava os Beatles e os Rolling Stones, mas que estudou e estudou muito, nem por isso foi herói ou pioneiro, os estudos eram prioridade e pronto. Falo disso para incentivar os presentes, mormente os mais jovens, lembrando-os de que QUERER É PODER!

Minha Ilha bela, acabo de receber a simbólica certidão de nascimento, que me outorgaram. Sou, pois, orgulhosamente, um ludovicense. Ludovicence de Ludovico, do germânico holdoviko, que originou no francês o topônimo Louis, Luís em português, mais ense, o que deu ludovicense. Sou agora conterrâneo de Aluízio e Arthur Azevedo, de Nauro Machado, Ferreira Gular, Odylo Costa Filho, Odorico Mendes, Josué Montelo, Maria Firmina dos Reis, Catulo da Paixão Cearense, Ana Jansen, Francisco Sotero dos Reis, que foi membro desta casa, só para citar alguns. Mas tenho que lembrar também que serei conterrâneo do meu colega e querido irmão Desembargador Jorge Rachid, grande magistrado e grande cidadão ludovicense.

Tenho muito, senhoras e senhores, o que agradecer a Deus. A esse Deus misericordioso que me deu mais do que mereço e até mais daquilo que sonhei. Além das muitas homenagens que já recebi aqui e alhures, agora recebo esse título de cidadão da cidade que escolhi para viver. É em São Luís que eu me encontro. Aqui conquistei amigos, aqui trabalho, aqui vivo a vida, “vida que é a combinação de amargo e doce, de triunfo e derrota”, como é para todo mundo. Somos todos responsáveis por nossa própria história! E pela história do meio em que vivemos, logo responsáveis por nossa querida São Luís. Cada um de nós precisa, pois, dar as nossas particulares parcelas de contribuição, sejam afetas à família, às escolas, às igrejas, aos ambientes profissionais, e sociais.

Finalizo cantando, louvando a São Luís, como fez nosso conterrâneo Bandeira Tribuzzi:

Ó minha cidade
Deixa-me viver
que eu quero aprender
tua poesia
sol e maresia
lendas e mistérios
luar das serestas
e o azul de teus dias

Quero ouvir à noite
tambores do Congo
gemendo e cantando
dores e saudades
A evocar martírios
lágrimas, açoites
que floriram claros
sóis da liberdade

Quero ler nas ruas
fontes, cantarias
torres e mirantes
igrejas, sobrados
nas lentas ladeiras
que sobem angústias
sonhos do futuro
glórias do passado

Obrigado senhores vereadores, obrigado senhoras e senhores."
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