domingo, 18 de junho de 2017

Entrevista de Joesley coloca a faca no pescoço de Barroso, Rosa e Fux, que na terça decidem se prendem ou não Aécio



por Luiz Carlos Azenha/Viomundo

O que está em andamento em Brasília, enquanto você lê este texto, é o epílogo de um confronto que começou nos bastidores assim que foi revelada a gravação de uma conversa entre o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, e o presidente do PMDB, senador Romero Jucá.

Foi em março de 2016, quando Jucá era ministro do Planejamento de Michel Temer. Trata-se do conhecido roteiro para “estancar a sangria”, ou seja, frear a Operação Lava Jato.

Primeiro, o impeachment de Dilma Rousseff, depois um acordão nacional pilotado por Temer, “com o STF, com tudo”.

É óbvio que, desde então, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, vem monitorando os movimentos dos inimigos.

Um dia o jornalismo investigativo talvez revele os métodos que utilizou.

É possível que, como afirma o dono da JBS, as gravações de Michel Temer e Aécio Neves tenham sido fruto de uma iniciativa individual do empresário para garantir o futuro.

Também é possível que Joesley tenha sido instruído a montar a armadilha, em troca de obter um acordo de delação premiada vantajoso.

Marcelo Miller, um dos auxiliares mais importantes de Janot, deixou o Ministério Público Federal e o Grupo de Trabalho da Lava Jato oficialmente no dia 6 de março de 2017, transferindo-se para o escritório de advocacia que cuidou da delação premiada da JBS.

No dia 7, Joesley gravou Temer em encontro noturno no Palácio Jaburu. No dia 24 de março, Joesley gravou o presidente do PSDB, Aécio Neves, em um hotel de São Paulo.

Está claríssimo que Miller levou pelo menos algum tempo preparando a transição entre os dois empregos.

Cabe perguntar: ele deu instruções, ainda que informalmente, a Joesley? Repassou informações do MPF a seus futuros parceiros de escritório? Soube antes que o futuro cliente gravaria Temer e Aécio? Soube das operações controladas da Polícia Federal?

Uma das entregas de dinheiro vivo feitas pelo executivo da JBS Ricardo Saud ao suspeito de ser o homem da mala de Temer, o então deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), aconteceu no dia 24 de abril, quando Miller já ocupava o novo emprego.

Agora, Época e Joesley fazem de conta que a entrevista do empresário foi dada apenas por insistência da revista. Contem outra.

A bomba foi programada para explodir às vésperas da decisão da primeira turma do STF de prender ou não preventivamente Aécio Neves.

Prender Aécio terá consequências políticas profundas para Temer e o PSDB.

A jogada de Janot com a entrevista de Joesley expõe alguns ministros do STF ao escrutínio da opinião pública, já que lá atrás, no plano antecipado por Jucá, o acordão teria a benção inclusive da Corte.

É provável que, àquela altura — antes do impeachment de Dilma –, Jucá estivesse crente de que o poder de ação de Gilmar Mendes nos bastidores seria o suficiente para garantir o freio na Lava Jato.

Desde então, o que aconteceu?

Janot e Gilmar tornaram pública a guerra que travavam nos bastidores, o ministro relator da Lava Jato, Teori Zavascki, morreu de forma suspeita, Michel Temer cimentou seu trato com o PSDB indicando um segundo tucano, Alexandre de Moraes, para o STF.

Podemos dizer, hoje, que o STF está “em disputa”.

Por 3 a 2, a primeira turma manteve na cadeia a irmã de Aécio Neves, Andrea. Os ministros Marco Aurélio e Alexandre de Moraes foram derrotados.

Agora, especialmente à luz da entrevista de Josley Batista, os olhos se voltam para Luís Roberto Barroso, Rosa Weber e Luiz Fux. São os três votos que podem colocar Aécio na cadeia.

Joesley falou várias vezes em ORCRIM, organização criminosa, durante a entrevista à Época. É o linguajar dos procuradores.

É como Janot talvez tente denunciar Temer em algumas semanas, como chefe de organização criminosa.

Joesley fez o papel esperado dele na entrevista: apontou Temer como o número um da quadrilha, Aécio como o número dois. Loures, Andrea e o primo de Aécio entram como coadjuvantes.

Janot tem pressa. Ele conta com a prisão do Mineirinho para aprofundar o racha no PSDB, derrubar Michel Temer e com ele Caju, Angorá e Primo. Babel pode ir em cana a qualquer momento e Carangueijo só terá razão para fazer delação premiada quando todo o esquema desmoronar.

Janot precisa de um resultado prático até 17 de setembro, quando deixa o cargo. É óbvio que ele pretende emplacar seu sucessor, Nicolao Dino*. Para isso precisa mostrar resultados e conter Temer.

Se sobreviver até lá, Temer pode simplesmente descartar a lista tríplice dos mais votados em eleições internas do MPF e indicar um engavetador-geral da República. Alguém duvida que o faria?

PS do Viomundo: *Também concorrem ao cargo os procuradores Carlos Frederico, Mario Bonsaglia, Ela Wiecko, Raquel Dodge, Sandra Cureau, Franklin Rodrigues da Costa e Eitel Santiago.