sexta-feira, 21 de julho de 2017

DA AMIZADE ENTRE NEGROS E BRANCOS


Por WILLIAM MAICOL/Revista Fórum

Uma das paradas mais intrigantes pra mim é a amizade entre negros e brancos no Brasil. Ao negro, é dada a possibilidade de ser amigo, desde que ele não venha pensar e se portar como negro – ou, a partir de sua negritude. Quem duvidar disso – aqui pode até ser branco para participar do teste – experimente falar de coisas da realidade do negro com seus amigos brancos. Experimente falar dos problemas sociais que envolvem o negro. Fale do racismo. Ou você é calado ou você vai se estressar. Se você se estressar, vão falar que é um chato, difícil, etc. Vão se afastar e por na sua conta os problemas do relacionamento. Vão falar que você não respeita a opinião dos outros. Vão te chamar de metido. Então, é assim que é: ou você cala ou você rala – com eles te isolando ou você fazendo isso por conta própria. E essa lógica das relações interpessoais estão reproduzidas em todos os espaços que os brancos ocupam. Isso é um dos pontos chaves do processo de embranquecimento das culturas de matriz africanas e da apropriação cultural.

Isso acaba sendo verdade também para a amizade entre homens e mulheres. Vá você mesmo – homem – e comece a falar para seus amigos a partir das colocações das mulheres sobre machismo, misoginia e tal. Comece a pontuar suas atitudes. Por favor, façam este teste!

Já fiz esse teste com um amigo no âmbito da negritude. Ele havia ficado puto comigo quando questionei a branquitude de seu meio e, assim, me coloquei em rota de colisão com seu grupo de amigos brancos. Me falou que eu era difícil e tal e que era questão de eu saber chegar. Falei pra ele que eu era tranquilo perto do que deveria ser. E pedi que ele, então, tentasse, a partir da ótica dele de uma pessoa “mais equilibrada”, levar esse papo na boa com seus amigos brancos. Não demorou um dia pra ele voltar e dizer que não queria mais tocar nesse assunto com a galera. Disse que ficou puto, porque a galera é muito cabeça fechada, só quer saber de si. Disse que eu tinha que fazer o que faço mesmo.

Duas coisas gritam nessa situação. Primeiro, o fato da pessoa não aguentar nem um dia o que aturo a vida toda – vejam só o tipo de pessoa que anda nos chamando de pessoas difíceis e impacientes. Em segundo lugar, o fato de ele experimentar, não gostar e largar a bomba no meu colo – tipo, esse problema não é meu. Isso nos leva a mais uma situação foda que acompanha nossos amigos que são “empáticos”, “solidários”, “conscientes” dos seus privilégios e da questão geral: juram que querem um mundo diferente, que são contra a sociedade que lhe dá vantagens, mas deixam claro que essa mudança desejada não pode depender do suor deles. Porque eles querem defender sua sanidade. Possuem coisas mais importantes pra fazer, como usufruir e assegurar seus privilégios.

E assim continua a exploração: o trabalho sujo e em condições insalubres é sempre nosso. Quem tem que ser o chato, se meter na merda, abdicar de outros afazeres, não ter opção de preservar sua sanidade? Advinha? Nós também, nós outra vez, nós de novo. Tudo que é desagradável fica com a gente. O que o branco não quer fazer, somos nós que fazemos. Era assim na escravidão. É assim agora. Branco faz o que quer. Preto faz o que sobra. A partir daí, questiono – pra caralho! – essa tal conscientização. Questiono mais ainda essa tal amizade. Amizade que se cala enquanto levo bala, não me arrependo quando vai pra vala.

Quero ser amigo de geral. Mas não quero uma amizade que me cala. Não quero negar minha identidade para ter uma amizade. Em primeiro lugar, devo ser amigo de mim mesmo e não posso mais ser conivente com quem queira me silenciar. É uma relação abusiva. Ou isso acaba ou que acabe a relação mesmo.
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