sexta-feira, 21 de julho de 2017

HPV e suas consequências para as mulheres: um entendimento mais profundo para um cuidado mais humano



Muitas pessoas já ouviram falar desse vírus, já foram diagnosticadas com ele ou sabem de alguém que teve. Todo ano, milhares de mulheres (muito mais do que homens) são submetidas a exames que chamamos preventivos para descobrirem se tem ou não alguma doença. Isso parece sempre uma boa ideia e saímos dos consultórios satisfeitas com nossos resultados negativos. Mas e quando o resultado vem positivo para HPV? O que ele pode causar? Devemos tratá-lo? Tenho uma DST?

O que é o HPV


O HPV (human papiloma virus ou vírus do papiloma humano) é um vírus que infecta a pele e existem mais de 200 tipos diferentes por aí. Podemos contrair o HPV pelo contato de pele e mucosas, formando verrugas, lesões precursoras de câncer, câncer de colo de útero ou, como acontece na maioria das vezes, nenhuma dessas.

A infecção genital por HPV é predominantemente (mas não exclusivamente) uma infecção transmitida sexualmente. A penetração vaginal e anal não são necessárias, uma vez que contato com mucosas e pele podem transmitir. Estima-se que 50 a 80% de homens e mulheres sexualmente ativos irão contrair a infecção por HPV em algum momento de suas vidas. É um vírus e uma infecção muito prevalentes, mais frequentes logo após o início da vida sexual. Altamente virulento, o período de incubação varia de 3-4 semanas a meses ou anos, o que significa que após o contato com o vírus, podemos demorar de semanas a anos para ter a infecção – muitas vezes nem ficamos sabendo que tivemos, pois não apresentamos sintomas.

Dentre os diversos microorganismos que nós mulheres temos em nossas vaginas, podemos dizer que o HPV, tão prevalente que é, faz parte da microbiota normal e nas mulheres que tem relação sexual com penetração, eles habitam também o colo do útero.

Ok. Mas e as consequências?

90% das mulheres que entrarem em contato com o vírus, irão eliminá-lo dentro de 12 a

18 meses graças a seu sistema imunológico. Uma pequena parcela terá verrugas genitais, lesões consideradas benignas, que podem ser tratadas de diversas formas, mas que também podem sumir sozinhas em 30% dos casos. Uma outra parcela bem pequena pode desenvolver câncer de colo de útero e é aí que a preocupação começa – e os exames também! Os números de mulheres que desenvolverão câncer de colo de útero e morrerão por isso têm diminuído, mas ainda é uma causa de morte importante entre as mulheres. Apesar da grande maioria dos cânceres de colo uterino terem como causador necessário o HPV, alguns deles ocorrem por outras causas e fatores como cigarro, a falta de acesso a saúde, a má alimentação, a exclusão social, a marginalização e outras doenças que comprometem o sistema imune agem em conjunto aumentando as chances disso ocorrer.

Dentre as formas de prevenção que temos, o uso de camisinha, o cuidado com a alimentação, diminuição do tabaco e o acesso a condições básicas de higiene e saúde são as mais eficazes. Além disso, tratar as lesões do colo do útero, quando estas aparecerem.

Os homens, também igual as mulheres, na maioria das vezes são assintomáticos, mas podem apresentar verrugas e, em casos muito raros, câncer de pênis ou ânus. Nenhum exame preventivo lhes é solicitado normalmente e, de fato, não precisa. Quando algum sintoma aparece, este deve ser investigado. Mas fazer testes para descobrir se tem HPV não está indicado. De fato, o peso de ter HPV nos casos em que nenhum sintoma existe é maior entre as mulheres, da mesma forma que as rotinas preventivas e tantas outras condutas médicas.

HPV x Câncer de colo uterino

Apesar do HPV ser fator causal necessário em até 90% dos cânceres de colo uterino (e alguns outros, como cânceres da cavidade oral), a esmagadora maioria das mulheres não terá câncer por conta disso. Isso é importante, pois um teste de HPV positivo muitas vezes é tratado como doença, quando na verdade deveria ser encarado como algo esperado de muitas pessoas sexualmente ativas, principalmente quando em contato com parceiro ou parceira novo/a.

A forma adequada de se diagnosticar o problema que realmente importa é fazendo papanicolau a cada 3 anos, podendo identificar possíveis lesões e tratando-as antes que estas progridam. Como não sabemos quais mulheres terão o câncer de colo de útero, todas são submetidas ao exame de papanicolau. A isso denominamos programa de rastreamento e essa é uma estratégia que chamamos populacional, em que idealmente todas as mulheres façam o exame para que algumas se beneficiem de encontrar as alterações a tempo. Isso faz com que mulheres saudáveis às vezes se submetam a biópsias e tratamentos desnecessários em prol das mulheres que de fato têm uma alteração.

Muitas das alterações do papanicolau são tão iniciais, que podem ser apenas observadas, repetindo-se a coleta após 6 meses, para evitar assim intervenções desnecessárias e danosas ao nosso corpo. Já se sabe que algumas alterações celulares pré cancerígenas são reversíveis. Quando a alteração se mantém ou progride, outro exame deve ser solicitado para melhor investigar o caso.

O teste de captura híbrida de HPV (um exame que encontra fragmentos de DNA do vírus em nosso corpo), realizado abusivamente, existe para espaçar as coletas de papanicolau e não para ser realizada anualmente em conjunto com papanicolau e outros exames. O teste avalia se a mulher tem ou não os subtipos de alto risco de HPV. Se o teste vem negativo, o papanicolau pode ser coletado a cada 5 anos!!!! Se o teste vem positivo, o papanicolau deve continuar a ser coletado a cada 3 anos. Não é necessário realizar qualquer tratamento com base nesse exame enquanto o papanicolau estiver normal. Ou seja, quem tem HPV e não apresenta sintomas, não precisa se tratar.

Há de se pontuar se vale a pena pedir o teste de DNA do HPV. Ele só deve ser pedido para mulheres com idade superior a 30 anos, e, ainda assim, avaliar com cada mulher qual é o impacto para ela de ter um teste positivo e o que isso significa. Muitas mulheres, ao descobrir que têm HPV se sentem um depósito de doenças, sujas e isso gera repercussões negativas em sua vida sexual e na forma como enxergam sua saúde e sexualidade. Algumas referem ainda sofrerem represálias em consultórios com insinuações de que estão sendo promíscuas e com prescrições específicas de condutas moralizantes.

É um paradoxo que mulheres com acesso à saúde, informação e bens materiais façam todo tipo de exames, muitas vezes sem necessidade e lhes causando mal, enquanto quem mais tem risco de desenvolver o câncer de colo uterino e precisaria realizar o papanicolau, está marginalizado dos cuidados à saúde, sem acesso a um trabalho digno e informação, exposto a outros agentes poluentes e cancerígenos (seja tabaco, sejam solventes no trabalho).

Vacinação:

A vacinação para os subtipos de alto risco do HPV (quadrivalente) que está disponível atualmente no calendário vacinal para meninos e meninas surgiu com o objetivo de reduzir a infecção pelos subtipos mais associados ao câncer de colo de útero. Com isso, se espera que menos mulheres tenham a doença no futuro e menos mulheres morra. Ainda não se sabe, no entanto, se este desfecho se cumpre. Para saber disso, precisaríamos acompanhar as mulheres por mais de 30 anos, coisa que ainda não ocorreu desde que a vacina surgiu.

O que podemos dizer sobre a vacina?

– Não está indicada para mulheres que já tiveram relação sexual ou, seja, que provavelmente já tiveram HPV, uma vez que a infecção por si só já estimula nosso sistema imunológico, da mesma forma como faria a vacina. A vacina não funciona como proteção extra.

– Tem uma proteção limitada e não se sabe quanto tempo durará a imunidade provocada pela vacina: para toda a vida? Por alguns anos? Ainda é incerto.

– Mulheres vacinadas podem ter câncer de colo de útero. A evidência que temos é a de diminuição de lesões intermediárias, mas não de diminuição câncer, o desfecho mais importante.

– O câncer de colo uterino não é somente causado pelo HPV. Além disso, há outros tipos de HPV oncogênicos (potencialmente cancerígenos) que não estão na vacina.

– Como o benefício ainda é duvidoso, é indispensável que se tenha essa conversa com as mulheres para que elas escolham se desejam se vacinar ou não e saibam os limites dos benefícios.

– Toda intervenção preventiva deve ter um benefício que compensa um risco. Comparada a outras vacinas, a vacina contra o HPV tem uma chance maior de efeitos adversos.

Para saber mais sobre câncer de colo de útero, acesse o protocolo do ministério da saúde: