domingo, 17 de setembro de 2017

Diálogos da fé: repressão e tortura: nestes tempos medonhos, que a memória traga esperança

Recomenda-se ao cantor Zezé di Camargo, segundo quem “não vivíamos numa ditadura”, conhecer a história do pentecostal Manoel da                                          Conceição Santos
O pentecostal Manoel da Conceição: brutalmente torturado durante a ditadura

por Magali do Nascimento Cunha (revista Carta Capital) 

A propósito da coluna da semana passada, publicada no dia 7 de setembro, sobre a história de evangélicos que perderam a vida durante a ditadura civil-militar, recebi muitos comentários. Foram elogios pela narrativa, surpresas com o histórico, indagações sobre outros perseguidos, crítica à inclusão de nomes não reconhecidos como evangélicos e condenação dos “neopentecostais” que não aparecem na lista por conta de seu conservadorismo.

Importa destacar que esta memória está contida no Volume II do relatório da Comissão Nacional da Verdade (2014), acessível pela internet. De fato, os chamados “neopentecostais” não poderiam ser mencionados, uma vez que não existiam naquele período. Não na forma como são reconhecidos hoje: presença nas mídias, pregação da prosperidade financeira como sinal da benção de Deus, exorcismo de demônios causadores dos males da vida, ocupação de espaços na política, entre outros.

No tempo da ditadura, os evangélicos se caracterizavam como históricos e pentecostais. Assim como os católicos e outros grupos religiosos dividiam-se entre apoiadores do regime (por adesão ou omissão) e opositores.

É significativo, então, a propósito, destacar que um dos testemunhos mais marcantes de evangélicos brasileiros perseguidos pela ditadura, segundo o relatório da CNV, é o do pentecostal Manoel da Conceição Santos.

Nascido em 1935, no interior do Maranhão, Santos está entre os trabalhadores rurais que sofreram nas mãos dos donos de terras. Tornou-se integrante da Igreja Assembleia de Deus, inspirado pela vida comunitária, a solidariedade e a valorização dos pequenos. Logo se tornou professor da Escola Bíblica Dominical (catequese no contexto evangélico) e auxiliar do pastor.

Também aprendeu com o Movimento de Educação de Base (MEB) sobre o sentido das injustiças que sofria e sobre seus direitos como trabalhador. Por isso, exerceu sua vocação cristã ao fundar o sindicato dos trabalhadores rurais em Pindaré-Mirim. Santos se tornou um grande líder camponês do Maranhão.

Com o golpe civil-militar de 1964 veio a perseguição. Em 1968, policiais chegaram atirando em uma reunião no sindicato e Santos foi ferido na perna direita. Depois de seis dias na prisão, sem tratamento, parte da perna gangrenou e teve de ser amputada.

Sindicalistas e outros militantes levantaram recursos que garantiram o tratamento e a colocação de uma prótese, em São Paulo. Livre, retornou a Pindaré e à causa da justiça. Preso novamente, foi sequestrado por agentes do DOI-CODI e levado para o Rio de Janeiro.

Na “antessala do inferno” do quartel da Tijuca (nome dado pelos próprios agentes), a perna mecânica foi arrancada e ele foi colocado nu na “geladeira”, a solitária, onde era tratado literalmente a pão e água e torturado.

Entre idas e vindas ao hospital para ser mantido vivo, além das práticas convencionais como choque elétrico, pau-de-arara e espancamento, o sindicalista pentecostal foi pendurado ao teto e teve o órgão sexual preso por um prego em cima de uma mesa.

Santos só saiu vivo dali para ser julgado, graças à campanha feita no Brasil e no exterior contra o seu sofrimento. Igrejas católicas e evangélicas da Europa e dos EUA protestaram contra a prisão e o desaparecimento do sindicalista, e enviaram cartas ao general Emílio Médici.

Em 1972, Santos foi condenado e cumpriu três anos de prisão. Quando libertado, foi hospitalizado em São Paulo, com o auxílio dos bispos católicos D. Aloísio Lorscheider e D. Paulo Evaristo Arns e do pastor presbiteriano Jaime Wright. Por causa da tortura, o homem urinava por meio de uma sonda e ficou impotente por anos. Meses depois, a casa onde estava foi invadida por policiais, que o levaram para o DEOPS, onde sofreu novas torturas.

O papa Paulo VI enviou telegrama ao general Ernesto Geisel exigindo a libertação do sindicalista evangélico. No fim de 1975, foi finalmente solto e teve o exílio por salvação. Retornou ao Brasil com a anistia de 1979. Aos 83 anos, continua a dar testemunho de sua vida e de sua fé no Deus da verdade e da justiça que conheceu.

Uma entrevista recente do cantor Zezé di Camargo, que se declara politizado, chamou a atenção. Ele disse a Leda Nagle: “Nós não vivíamos numa ditadura, vivíamos num militarismo vigiado… O Brasil nunca chegou ser uma ditadura daquela de ou você está a favor ou está morto”.

Um retrato dos tempos medonhos que vivemos, difíceis de interpretar. Tempos em que há até mesmo gente que se denomina “de bem” a pedir a volta do regime militar, este mesmo que criou a “antessala do inferno” para Santos e tantos outros.

Desta história de evangélicos no Brasil, diferentemente daquela mostrada pelas mídias gospel em evidência, ecoa a palavra da Bíblia cristã, escrita em tempos medonhos: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lamentações 3.21).

A memória do compromisso do pentecostal Manoel da Conceição Santos com a justiça e a paz nos anima a esperar com esperança nestes tempos estranhos.
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