“Aluno nota 10”: exemplo da sociedade ao governo

Por Marcelo Auler, em seu blog e para o Jornalistas pela Democracia - Enquanto os novos governantes, a começar pelo capitão eleito Jair Bolsonaro e seu ministro da Educação, o filósofo colombiano e professor de escola do Exército Ricardo Vélez Rodríguez, perdem tempo insistindo em defender o malfadado projeto de “Escola sem partido”, já devidamente enterrado na Comissão Especial da Câmara dos Deputados, parte da sociedade brasileira no interior do país se movimenta em favor da educação. Especialmente da educação pública.

Um exemplo vem de Morro do Chapéu, município baiano na Chapada da Diamantina, a 384 km a noroeste da capital do estado, com 36 856 habitantes (censo de 2014). Na última sexta-feira de novembro (30/11) parte da população da cidade parou por conta da festa de entrega do chamado “Oscar da Educação Morrense”.

Oficialmente batizado como “Projeto Aluno Nota 10”, o programa, com 11 anos (foi criado em 2007), surgiu e persiste graças à iniciativa de Luciano Martinho Barreto, 39 anos. Formado em administração de empresas, ele se destaca na cidade como o dono da padaria Casa do Pão e o idealizador do projeto.

“A ideia surgiu através de um diálogo com uma criança, em 2007, que veio à loja para comprar pão. Brincando, questionei: ‘Está estudando? Tem que estudar para dar alegria a papai, a mamãe, ao vovô e à vovó no final do ano”, recorda-se.

Sua iniciativa tem por objetivo algo que deveria ser a preocupação dos governantes: incentivar o estudo por alunos de diversas idades, em especial de escolas públicas (incluindo os da zona rural), sem deixar de beneficiar também, separadamente, alunos de algumas escolas particulares.

Com o apoio dos colegas do comércio da cidade – em 2018 foram 82 patrocinadores -, distribui prêmios tais como tablets, notebooks, passando por bicicletas, valores em dinheiro, curso de inglês e até mesmo tratamentos dentários. Entrega-os aos alunos que mais se destacaram no ano anterior.

Em um único ano, 2017, a premiação não foi realizada, segundo ele, por conta da crise econômica. Nas suas dez versões, o Projeto Aluno Nota 10 premiou mais de 500 estudantes.

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A questão é que, como ficou claro, se o incentivo dos comerciantes é uma força para que jovens se interessem pelos estudos, ele sozinho não resolverá o problema que é muito mais amplo. Passa pela rediscussão do papel da escola. Não pelo projeto Escola Sem Partido, que o novo governo e seus aliados insistem em manter. Mas, como diz a carta das escolas construtivistas, passa obrigatoriamente por um projeto que vise “resgatar a qualidade do nosso ensino”.

De qualquer maneira, a sociedade brasileira, como mostra o Projeto Aluno Nota 10, já vem se mobilizando a favor de uma educação escolar democrática e de qualidade. Que assegure não só o acesso ao ensino, mas a permanência dos estudantes – em especial nas escolas públicas. Falta o governo arregaçar as magas.

Leia o texto na íntegra no Blog de Marcelo Auler.
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